Conheça mais o Gabriel Manetti, autor de Chico e o Osso de Dinossauro

Conheça mais o Gabriel Manetti, autor de Chico e o Osso de Dinossauro

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Blog - Matérias
- 08/12/2020 15:54:18

Gabriel Manetti, autor de  Chico e o Osso de Dinossauro, um dos livros que estava disponível na assinatura do clubinho de novembro, enviou um texto para gente SOBRE UM DIA MUITO ESPECIAL NA VIDA DELE, que ocorreu quando ele tinha nove anos. Além de ser escritor, Gabriel tem um projeto musical e desde jovem ama a música.

Confere o texto abaixo!


A Largada

Dia 28 de março de 1993.
Eu tinha nove anos.
Era um domingo.
O dia havia começado com um lindo céu azul. O sol, imponente e intenso, resplandecia de forma insólita, antecipando que aquele domingo não seria um domingo como os outros.
E não seria.

Aos poucos, nuvens sorrateiras, escuras e carregadas foram cobrindo o céu, como visitantes indesejados, expulsando seu anfitrião principal.
Meu pai estava agitado. Mais do que o normal. No almoço, enquanto comia uma macarronada, sua perna esquerda balançava pra cima e pra baixo como uma britadeira enlouquecida.
- O Roberto vem mesmo, João? – perguntou minha mãe.
- Vem! Vai chegar às quatro em ponto. Hora da largada.
Algo estranho pairava no ar, não havia dúvidas. As pernas do meu pai oscilando, a visita do meu tio às quatro horas em ponto e a tal largada.
Que largada seria essa?

Depois do almoço, fui brincar com meus bonecos como de costume. Eu levava minhas brincadeiras muito a sério. Eu inventava tramas, viradas e soluções mirabolantes. Ficava horas e horas absorto, e só saía dessa espécie de transe quando achava uma resolução correta para a história que havia criado.
Na época, os “Comandos em Ação” faziam a minha cabeça. Eu tinha uma mochila repleta deles. Cada boneco tinha uma característica especial e uma habilidade específica. Tinha o que era especialista em desarmar bombas, o que era mestre em artes marciais e o que era um ás no volante. Nenhum boneco era igual ao outro, e era exatamente isso o que mais me fascinava. Era um barato.

De repente, a brincadeira foi interrompida por um convite.
- Filho, vamos na locadora rapidinho? – perguntou meu pai.
Se tinha algo naquela época que podia rivalizar com minhas histórias e meus bonecos, era um convite à locadora de filmes. Aliás, se tem uma coisa que a modernidade me tirou e me deixou órfão é essa deliciosa ida até a locadora mais próxima.
Voltando para o dia 28 de março.

Rapidamente larguei os bonecos e fui com meu pai à locadora. Corri até a prateleira dos desenhos animados e fui passando os olhos freneticamente em minhas possíveis escolhas. Essa hora sempre é a mais difícil. “Homem- Aranha”? “Tartarugas Ninja”? “Tintim”? Qual seria o da vez?
De repente, interrompendo aquele inevitável sentimento de dúvida que corrói toda criança que tem muitas opções, meu pai se aproximou balançando uma fita cassete com um estranho símbolo na capa.
- Eu acho que você vai adorar! – disse empolgado.
- Esse? – perguntei pegando a fita de suas mãos. – “Queen”? O que é isso? Algum desenho?
- Não, são videoclipes! E “Queen” é uma banda de rock. Você vai amar! Vamos ver antes da largada?
- Vamos! – respondi chateado, deixando as três fitas na prateleira.
Adeus “Homem-Aranha”, adeus “Tartarugas Ninja”, adeus “Tintim”.

Chegamos em casa e o céu seguia escuro. O sol já havia sumido há um bom tempo e aquele cheiro inconfundível que antecede as tempestades tomava conta do ar. Faltava uma hora para a misteriosa largada e para a chegada do meu tio Roberto. Sentei no sofá enquanto meu pai colocava a fita no videocassete. Aquele “Queen” jamais seria melhor do que um desenho do “Homem-Aranha”. E videoclipes eram coisa de adulto. Eu queria coisa de criança. Estava prontinho para detestar o que quer que aquilo fosse.
O símbolo exatamente igual ao da capa apareceu na tela preta. Meu pai aumentou o volume no exato momento em que a minha mãe chegou e se juntou a nós.
A partir daí tudo mudou.

As primeiras notas de “A Kind of Magic” ganharam a sala e, naquele instante, tive a noção de que minha vida jamais seria a mesma. Depois vieram “Under Pressure” e “Radio Gaga”. Eu estava enfeitiçado. Cada música era um novo portal que se abria diante de mim. Eu nunca tinha experimentado coisa parecida. Quando “The Miracle” chegou ao fim, meu tio Roberto chegou. Já era quatro horas. Hora da largada.
Meu pai desligou o videocassete apressado e a corrida começou. Os carros da Fórmula Um largaram, enquanto o locutor gritava sem parar que um tal de Ayrton Senna era o primeiro colocado. Meu tio roía as unhas e meu pai voltou a balançar as pernas vertiginosamente. Aquela corrida de carros era o motivo de todo nervosismo?
Nada daquilo importava. Eu estava nas nuvens. Eu queria ser o Freddie. Queria ser o Roger Taylor ou o Brian May ou o John Deacon. Nada mais importava.
Eu queria ser um rockeiro.

A chuva finalmente caiu e o Ayrton Senna venceu aquela corrida para a alegria do meu pai e do meu tio. O povo invadiu a pista para comemorar a vitória do ídolo enquanto o locutor, emocionado, gritava sem parar.
- Esse é um dia histórico, amigos! Histórico!
E não é que ele estava certo? O dia 28 de março de 1993, definitivamente, foi um dia histórico e ficou pra sempre em minha memória.
Se aquele menino soubesse que vinte e sete anos depois viraria um rockeiro de fato, cairia pra trás. E se soubesse que não seria cantando “Queen”? Nossa! Nem imagino a confusão.

Aquela criança de nove anos jamais imaginaria que aquelas histórias inventadas serviriam tanto para o adulto de hoje. Que aquela mesma vontade de criar histórias ainda está viva, plena e forte, e que no dia 17 de abril de 2020, ano que não será esquecido como aquele dia 28 de março de 1993, lançaria seu primeiro livro contando a história de um garoto que também tem uma revelação inusitada.
Foram tantas voltas, idas e vindas para entender que sigo sendo aquela criança de nove anos que quer inventar histórias e que continua brincando, como naquele dia.

Gabriel Manetti,
Dia 09 de novembro de 2020.

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